LULU LINDA

CAMPINHO

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Campinho de Futebol na concepção da Camille:

- Mãe, mãe!! Olha, um estádio de barro de futebol!


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Como será que ela vai chamar a pelada, heim...

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As crianças borbulhavam horas após horas, nesta festa infantil que dura a infância inteira, nesse circo infantil que ri de qualquer besteira. Nessa urgência de vida, como se a eras esperassem para as brincadeiras. Colocadas na cama devidamente alimentadas, limpas, beijadas, encantadas e embaladas por contos e cantos, ainda assim resistiam bravamente à urgência do sono. Foi necessário contê-las. Feito assim um laço de abraço e no seu calor sussurrar ao pé do ouvido, avisando aos pequeninos que o dia fora longo e que aquele corpinho precisava também de descanso. Precisava dormir. Dormir e crescer.
Mas no anseio infantil de viver e correr e saber, nem sequer perceberam que à horas o sr. Sono batia na janelinhas das pestanas anunciando sua chegada, que ele tinha hora marcada e que o mundo dos sonhos também precisava delas para sobreviver. Então bastou um recostar de cabeças ao travesseiro para a mágica acontecer. Atendendo ao seu chamado, dormiram um soninho tão puro e profundo de fazer silenciar o mundo... esse mundo.
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VENTANIA

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Esta noite, um vento repentino,
meio fora de rota entrou sem bater na porta e agitou meu quarto inteiro. Cantarolou ao pé do meu ouvido, gelou meu travesseiro, despenteou meus cabelos, despertou móveis e objetos queridos, engilhou meu vestido passado, umedeceu meu par de sapatos e saiu com forte zunido fazendo a curva no meu umbigo. E saiu tão ligeiro, tão ligeiro...que não tive tempo...
Tempo de lhe dizer que a sua visita me acordou de um pesadelo. Que assanhados meus cabelos, curtiram o embaraço e brincaram de abraços. Guarda-roupas, escrivaninha, penteadeira, livros e bijouterias, sentiram-se acariciados. Meu travesseiro gelado, só pediu um abraço apertado. Meu vestido engilhado, estava mesmo acalorado e sentiu-se bem melhor, obrigado. Meus sapatos umedecidos, soltaram uns poucos espirros, mas com isso espanou a poeira que dormia tranquila e desavisada na sua fivela cromada. E aquela curva no umbigo? Ah! fez cosquinha achei graça! Foi manobra de dar inveja a esquadrilha da fumaça!
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ps:
ah! e não pensem que a poeirinha virou uma sem-teto. Pegou carona com vento e voou sorrateira pra fixar moradia em uma fresta entre os livros e penteadeira.
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DANIEL ASSAFE - BENÇÃO DE DEUS NA MINHA VIDA


Agora são três.
São três os meus amores,
Três caminhos,
Três mundos,
São três cores.

Daniel, Camille, Louise
E quando adentro a porta
É só o que me importa

Desafio presente
Projetos futuros
Sujeira no chão
Rabiscos no muro
Band-aid, pomada, carinho,
Colo e computador

São três lições,
Três refeições,
Mastigando de “vagarinho”

ORDEM

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O
Essa desordem no banheiro
É só minha caçula tentando lavar sozinha seus cabelos

Essa desordem no quarto
É só minha mais velha
Escolhendo um par de sapatos

Essa desordem aqui dentro
É só um sentimento bobo de mãe
Vendo crescer seus rebentos
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DONA JOANINHA


Dona Joaninha saltos altos
Exibida a caminhar
Escorregou feio, a coitadinha
Caiu na lata de tinta
Ficou tão atordoada a pequenina
Pensou perder suas pintas
Numa lata de sardinha

Tal foi seu desespero
Que caiu no exagero
De contratar o grilo Zezão
Para tão difícil missão
Após horas de buscas constantes
A joaninha deu um chilique
- Sem minhas pintinhas não vivo
- Minhas vistas já escurecem
- Não consigo respirar!
- Todo o meu ser padece!

Entre piruetas e malabarismos
Deu um rodopio esquisito
Desmaiada no chão foi parar
Com pose de super star
O seu grilo cricrilando,
Saltitando, grilificando
Pôs-se no mundo a gritar
- Salvem a dona Joaninha
- Sem suas pintas não pode ficar

Dona Barata que de longe assistia
Calmamente, a confusão
Pegou um balde bem grande
Com boa medida de água
Esponja e sabão
A qual despejou com vontade
Sobre a joaninha em faniquitos
Esfregou-lhe a cara, barriga
Asas, antenas, ouvidos
Entre gritos e lambança
De dona Joaninha
E para o desespero
Da curiosa vizinhança

Retirando toda a tinta
Pretinhas as pintas surgiam
- Pronto dona Joaninha
Suas pintinhas todas de volta
Já chega de tanta loucura
Pois há tempos
Que um bom banho cura
Sujeira, preguiça e frescura.

PRA VIVER BEM

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Não me apague o riso da amarelinha, nem me force sorvete sem lambança, pois ser adulto sem ser um pouquinho criança, é que nem comer jujuba de garfo e faca. Tem graça?
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DESATENTO

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Mas aquele mosquitinho desavisado, não sabia que o bordado da dona aranha era o adorno da sua mesa e ele a própria sobremesa?
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LULU E DONA BALEIA... DIGO MARISA


Dona Marisa nesse dia foi vó foi mãe foi tia. Doava tempo espaço abraços. Serviu alegria e um belo churrasco. E tanto fez nesse mar sem areia que virou até baleia! A Louise a dominava no mar azul imaginário. Fez viagens submarinas com direito a monstros e golfinhos no cenário. Ela assim curtiu o dia e sorriu à vontade com as primas. E dona Marisa que foi tão companheira vai entrar pro nosso diário como amiga das crianças e uma bela sereia.
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NANINHA


A Louise é um doce
Uma primavera
mas se pegar no pé dela
ela vira uma fera!

MENINA MI EM SOL

Jóia, lapida teu valor rara menina. Pura, busca na fonte dos jardins do teu frescor teus nobres rumos flor menina. Sonha, que teus desejos são chuvas demoradas que revigoram a terra e acariciam a alma cansada. Planta, que tuas sementes são boas e hão de gerar vida. Rega, que tua fonte é pura e impetuosamente infinita.

UMA TARDE NO MAR


(camille)

ZANGA


Te quero tão bem minha menina, te acho tão linda e linda, até assim, com cabelinhos assanhados e essas roupinhas dormidas. Preenche-me de ternura quando tão pequenina cabes no meu abraço e te refugias no meu ombro brincando de esconde-esconde, onde solidária contigo te protejo dos assombros. Mas quando de tantos beijos te incomodo, te tantos abraços te importuno com meu exagero materno, às vezes te levo à zanga. Aí então eu apelo, te faço as infalíveis cócegas, até que essa carinha emburrada se desfaça em sonoras gargalhadas.


LOUISE I

Eu brava com a Lulu:

- Sossega Louise!

Ela brava comigo:

- Ah!... Você me brigô!

Vô conta pra sua mãe!

- A minha mãe morreu, filhinha.

- Ah!? morreu?

- Sim, a vovó foi pro céu.

- Ah! Meu pai vai comprar um foguete!
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LOUISE II

Eu dando banho na Lulu

Ela choramingando...

- Não chora Louise!

- Ah!... Você me brigô!

Vô conta pra sua mãe que tá morrida!

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LOUISE III

Eu dando o jantar da Louise:

Ela enrolando...

- Desenrrola Lulu, come!

- Ah!... Você me brigô! Vô conta... vô conta... é... é... vô conta pro seu pai!

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BORBOLETINHA NÃO TÁ NA COZINHA...


BURRO PREGO

Ana Maria menina boa
Mora na casa grande
Da fazenda Canoa
Ela é muito educada
Sempre gentil camarada
Inclusive no trato com a bicharada

Na fazenda Canoa
Tem tudo que é bicho
Galinha vaca marreco
Pato tatu avestruz
Tem porco de todo tamanho
Arara papagaio pavão
Tiú tatu passarinho
Cavalo
Mico atentado
Subindo e descendo o telhado
E a criação de coelho
Pêlos brancos
Olhos vermelhos

Ah! Tem um, que não posso esquecer
O bicho mais importante
De todos os arredores
É o burro Prego
Que de burro não tem nada
Eta! Bicho esperto!
Com ele ninguém pode

Veio um dia de férias à fazenda
A prima de Ana, a Valesca
Menina mimada e insolente
Veio a fazenda obrigada
Para dar folga aos pais
E sossego a empregada

Mas com doçura a menina Ana
Recebeu-a com alegria e amizade
- Prima seja bem vinda
Fique muito a vontade
Aqui na fazenda Canoa
Tem muita natureza
E uma grande liberdade

A prima de nariz empinado
Ignorou Ana Maria
- De onde eu venho
Isso sim, que é vida
Aqui não há novidades
É só um lugar de bichos esquisitos
Carrapicho, mosquito
E um monte de estrume
Não estranhe meus modos, prima
É melhor que se acostume
Mas isso não combina
Com meu estilo de vida
Nem com meus finos costumes.

- Tudo bem prima Valesca,
Alguns dias no campo
Farão muito bem a você
Com toda certeza !
Falou Ana docemente
Enquanto Valesca se gabava
Das vantagens da cidade
Insistia em desprezar
As riquezas da natureza

Pastando bem pertinho às duas
Em um campo cercado
Estava o burro Prego
Que de burro não tem nada
Eta! Bicho levado!

Não gostou do tom conversa
Que acabara de ouvir
E começou a matutar uma peça
“Gente da cidade é mesmo esquisita
Sem o campo a cidade não vive”
E com esse pensamento
Deixou passar o tempo

Certo dia, após longa chuva
Valesca quis passear
A terra era só lamaçal
Poça d´agua por todo lugar
O carro de seu tio estava distante
E Valesca não queria sujar
Seus caros sapatos de marca

Ali por perto quem passeava?
Burro Prego sequinho e tranqüilo
A menina não pensou duas vezes
- Vem cá seu bicho lorota
Você que gosta de sujeira
Vai evitar que eu pise em lameira

Burro Prego
Que de burro não tem nada
Eta! bicho astuto!
Encostou-se gentilmente
Junto ao alpendre da sala
Fez uma pose elegante
Para a menina montar

Sentada sobre os lombos de Prego
Valesca com seu nariz empinado
Sentiu-se dona do pedaço
Segurando em seus arreios
Gritava arrogante
- Vamos animal
Quero atravessar o quintal

Burro prego não perderia
Tal oportunidade
E saiu em disparada
Passou lama, passou poça,
Passou grama, passou roça
Passou mato, passou ladeira
E Valesca em desespero
Gritava por socorro,
A torto e a direita

Mas mesmo em profundo apuro
Não baixou a petulância
- Para seu burro atrapalhado
Agora você tá encrencado!
E o Prego nem ai

- Para seu bicho esquisito
- Você vai ser despedido!
E para seu desespero
Mais ainda o bicho corria
Vendo toda aquela valentia

Percebendo que seus insultos e ameaças
Não davam resultados
Valesca tentou a trapaça
- Burro, seu burro embirrento
Para agora, eu ordeno
Te dou um saco de milho
Outro cheio de farinha
E o burro se divertia

Já vivendo um pesadelo
A menina Valesca resolveu
Apelar para a última instância
E usar de educação
- ÔH seu burro Prego
Por favor eu te peço
Pare de galopar disparado
E ponha-me no chão
Deste cerrado

Burro prego
Que de burro não tem nada
Eta! Burro engraçado!
Acenou com a cabeça
E atendeu ao pedido da moça
Só que não de vagarinho
Mas de supetão, de uma vez
Jogando a mimada granfina
Em um lugar bem macio
Um monte de esterco revolvido
Preparado para o plantio

De uma vez a metida
Caiu no monte fedido
Enfiou seu nariz empinado
Em monte de estrume e serragem
Levantou-se limpou seu orgulho
Depois seu rosto corado
Sacudiu o seu vestido
Procurou seu sapato quebrado

Quando se armou de ira e fúria
Para ofender nosso amigo
Valesca fitou em seus olhos
E antes de abrir sua boca
Lembrou que foi ao seu pedido educado
Que o animal que sereno lhe olhava
Atendeu sua solicitação
Lançado-a em segurança ao chão

Então refez o seu discurso
- Seu burro o senhor me desculpe
Tantas palavras horríveis
Acho que agora entendo
O que me disse Ana Maria
Já livre de seu orgulho
Pôs-se a chorar a menina

Burro Prego
Que de burro não tem nada
Eta! Burro amigo!
Abanou suas orelhas
Ajoelhou-se bem pertinho
Da menina arrependida
Passando-lhe confiança
De leva-la em montaria
Para a casa da fazenda
Em completa segurança
Entendendo a atitude de Prego
Valesca montou em seu novo amigo

No caminho de volta a casa grande
Prego, passou de propósito
Por alguns lugares onde a menina
Veria coisas importantes
Para completar o aprendizado
Do qual jamais esqueceria
E calmamente retornando
Mostrou-lhe cenas incríveis

A menina ficava encantada
Com tudo que observava,
Viu o capim forrando a terra
Viu a vaca comendo o capim
Lembrou que da vaca viria
O leito gostoso e saldável
Da vaca ainda o hambúrguer
E ainda seu sapato de marca
Viu no arado da terra
O esforço do burro Prego
Viu belos favos de abelha
Ocupadas em seu ofício
Viu brotando da terra
Folhas verdes, nutritivas
Viu árvores frondosas
Belas e frutíferas
Gerando sombra de graça
Para quem quer que precise
E ainda limpando o ar
Com sua função fotossíntese
Viu ainda dona galinha
Cuidando de sua ninhada
Ciscando a terra molhada
Servindo minhoca fresquinha
Para uma turminha animada

Foi necessária esta experiência
Para que Valesca, a intolerante
Pudesse enxergar a beleza
Que no auge de sua arrogância
Não a deixava experimentar

Essa foi uma lição sem igual
A lição do burro Prego
Que de burro não tem nada!
Eta! Bicho especial!

Aproximando-se da casa grande
O circo já estava armado
Com pião por todo lado
Todo mundo em desespero
Já declarando castigo
Severo e merecido
Para o perigoso burro fugido

Quando ao longe avistaram
Valesca sobre o lombo do Prego
Em vistosa montaria
Ficaram de boca aberta
Pela calma que a cena trazia

Chegando bem próximo
De todo povo cismado
Valesca montada no Prego
Com um sorriso suave
Todos, inclusive Ana Maria
Viram algo diferente
- Oi prima, oi todos
Disse a menina sorridente
Hoje foi um dia maneiro
Vou marcar no calendário
Pra lembrar o ano inteiro

Aprendi com a sabedoria de um burro
Como a vida é interessante
E que na terra existe uma lógica
Bastante intrigante
Não existe ninguém melhor
Mais fino ou mais importante
Sendo todos necessários
Para uma vida equilibrada
E muito mais gratificante

Burro Prego
Que de burro não tem nada
Eta! Bicho camarada
Olhou para Ana Maria
Fez um sinal com cabeça
Deu um abano de orelhas
E foi saindo de cena
Assim, como um sábio faria.

SAPO BENTO

Sapo Bento na beira do rio
Apesar do frio
Cantou, cantou que encantou
Dona sapa Leonora
Casou e mudou-se feliz
Para uma bela lagoa

Mas não é que o sapinho
Após seu casamento
Mudou de casa
E também o comportamento
Vejam só que o sapo Bento
Só canta agora
Com acompanhamento
De orquestra
Ou de algum instrumento

Feito suas exigências
Colocou-se a ensaiar
Com seu violão antigo
Vive agora a incomodar
Esposa, vizinhos, amigos
Em todo tempo
Em todo lugar

Cantar ele canta bem
Mas tocar é outra história
Não consegue entrar no tom
No delem delem da viola
Longo tempo já passado
Nem um acorde bem feito
Mas Bento não toma jeito
Garante aprender bem direito
E uma orquestra formar

Após um dia inteiro
No delem delem rotineiro
Dona sapa Leonora
Rodou sua saia florida
- Bento, seu sapo teimoso!
Preciso dormir meu querido
Deixa a viola folgar
E meus ouvidos descansar!
Bento diante do pedido
Ficou muito ofendido
Se suas notas eram sinfonia
Por que Leonora bradaria?

Depois disto o sapo ficou triste
Abandonou sua amiga viola
Deixou os ensaios de horas
Deixou o seu entusiasmo de sempre
Deixou até de lavar o pé
E foi nessa ocasião
Que pegou seu famoso chulé
Nem seu amigo Mané
Aguentou a tristeza do amigo

Dia desses, cabisbaixo
Ele pôs-se a pensar
Andou pelos cantos da casa
Encostou-se na quina da pia
E ainda não entendia
Por que sua melodia
Não agradava a freguesia

Ainda pensativo
Sapo Bento foi passear
Perto da lagoa antiga
Onde tantas vezes sua cantiga
Tornou as noites mais lindas
De repente, ao longe percebeu
Vindo do Brejinho Oleiro
Que uma linda música se ouvia
Tocada com tamanha maestria
Como a tempos Bento não via
Ouviu também um soluço
Como alguém que muito sofria
Chegou perto e viu claramente
Um sapinho tocando viola
Com tanta beleza e harmonia
Que no peito Bento sentia

Foi mais próximo com cuidado
E com uma palavra amiga
Elogiou o triste seresteiro
- Amigo não pude evitar
Sua música é tão bela
Permita-me o prazer de escutar
Então o sapinho respondeu
- Pode se achegar companheiro
Meu nome é Ribeiro
Posso apresentar-te acordes
Mas minha grande tristeza
Dia após dia
É não conseguir entoar
Uma só melodia

Bento ao ouvir tal história
Pode melhor refletir
Em sua própria trajetória
E uma luz brilhou em sua mente
Então lhe falou mansamente
- Amigo Ribeiro, ele disse
Vamos mudar nossa história
Eu também já fiquei muito triste
Por não tocar bem minha viola
Mas se unirmos nossas forças
Vamos realçar nossos dons
Será uma boa aventura
E teremos muita alegria
Eu canto afinado,
Você toca no tom
Uma bela harmonia

Após unirem esforços
Grande foi o resultado
Hoje são muito famosos
Por todo o mundo brejeiro
Nos rios, riachos e lagos

E foi assim que surgiu
A primeira dupla sertaneja
Dos sapinhos do Brejinho Oleiro
“BENTO E RIBEIRO”
Mais que uma dupla:
Amigos verdadeiros!

MI BAILA(RINA)

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A menina insiste em ser criança em brincar todo dia e toda hora. Ela flutua entre doces e danças. Ela não quer medidas quer seu tempo de ser feliz. A menina corre com vento, pinta e borda, suja o nariz. Ela brinca de criar, o seu muro é o seu país. Ela não sabe da vida, ela não quer salvar o mundo. Ela só quer um vestido de fita. Com sua alegria que contagia quer fazer natação e ser bailarina. Enquanto chove nas nossas cabeças deixa a menina brincar. Essa menina ri a toa, e compreende minha caduquice. Ela perdoa meus exageros e tolera meus destemperos. Com ela volto no tempo posso de novo ser criança. Brincadeiras sem limites, então me lembro o quanto fui livre. Por isso a menina quer ser criança. Porque infância é só uma vez. E de tudo que se ganha só se carrega uma. Doces ou amargas lembranças. Então, vamos nos acalmar . E deixar a menina ser criança.

O LÁPIS-GIRAFA ESCOVA DE DENTES

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Depois que foi arrancado bruscamente do meio de seus semelhantes ainda recém produzido e estocado em uma papelaria... se bem que foi só a compra escolar das crianças.. o jovem Lápis-girafa foi adotado pelas escovas de dentes da casa. Ali sua vidinha recomeçou. Aprendia tudo sobre higiene bucal, hálito bom e mau, cáries, placa bacteriana, fio dental e coisa e tal. A cada dia sentia-se uma autêntica escova de dentes. Mas ele estranhava porque nunca havia sido requisitado para esse seu chamado higiênico tão importante. Nem mesmo as crianças lhe davam a honra do uso. Apesar de sempre lhe fazerem um carinho ou uma graça. Começou a sentir-se ignorado, sem utilidade, incapaz. Dona Branca, a escova mais velha de todas já com suas cerdas muito abertas, sabia que em pouco tempo não estaria mais ali, para consolar seu filhinho diferente. O chamou então para uma conversa de escova para lápis e lhe disse toda a verdade: Meu filho, você é adotado! Você é um lápis. Uma das crianças da casa te achou tão lindo que não quis te desgastar e te colocou aqui só pra te apreciar na hora da escovação. Te criamos com muito amor e sua presença foi nossa alegria aqui na latinha verde, então te direi algo muito lindo. Nós mantemos a boquinha das crianças limpas e saudáveis com a ajuda do Sr. Creme Dental, mas você meu querido, tem um chamado especial. Com teus riscos um milhão de possibilidades se abrem, as idéias se materializam e os sonhos se confirmam, ficando o mundo assim mais interessante e rico de formas e conhecimento! Então o Lápis-girafa com os olhinhos cheios d´agua deu um beijo agradecido na mamãe escova, pois, feliz agora compreendia sua função e não ficou chateado por ser adotado não. Pois lá bem no fundo do seu coraçãozinho de lápis ele sabia, que pai e mãe é quem cria.
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O SUMIÇO DO JUCA

"Esta historinha, eu dedico ao meu irmão Nilton Júnior, que proporcionou, apesar do susto, a mim e a toda a familia esse episódio inesquecível em nossa divertida infância." Vou contar uma história, não duvide não, meus amgos. Aconteceu de verdade, aqui não se tira, nem aumenta. Se deu lá pelos idos dos anos setenta, não no início, um pouco além da metade. Época boa, porém pouco o luxo. Casa com muitas crianças. Cidade sem muitos recursos. Água não vinha da torneira, mas da mangueira do pipa. O banheiro era privada, luz só vela ou lamparina. Ferro era mesmo de ferro e à brasa se aquecia. Chuveiro, só na novela, lá na casa da vó Manela. Banho bom, o de bacia. Mas o certo, é que o fato aconteceu com a família dos Silva. Silva como tantas famílias brasileiras. Só que esta era os Silva de mãe por nome Sebastiana. Uma mãe simples e dedicada, mãe de sete, mais oito criava. Dos oito, sete meninas, um apenas o rapazinho da casa. O dodói de toda a família, um peralta, uma peça rara. Dona Sebastina, era mãe de se orgulhar. Tinha um tipo de sabedoria que não se aprende na escola, mas do aprendizado da vida. Sempre dando bom exemplo e educando sua prole querida. Como a lista dos filhos é grande, vai ficar pra outra hora. Mas certo é que a turminha era grande e movimentada em um momento um doce em outro, pimenta estragada. Mas me importa dizer o nome do menininho, pois é o pivô desta história. Prestem muita atenção pois foi um grande mistério a intrigar adultos e crianças por toda aquela região. O nome do pequeno é Juca. Menininho levado da breca, pois o moleque até dormindo conseguia se meter em encrencas. Certa vez, sua mãe promoveu uma tarde de tarefas, ensinando aos filhos a tudo bem fazer com carinho e sem muita pressa. Incubiu a cada um de uma missão necessária. E foi distribuindo tarefas entre as oito crianças, para a arrumação da cozinha, dos quartos e da sala. Determinou os serviço da casa deixando bem claro que somente após tudo arrumado é que garotada estaria liberada para voltar a brincar. Após ordenar as meninas a mãe dirigiu-se ao menino Juca: - Filho, você fica com a organização das roupas limpas, olhe esse monte em cima da cama deve dobrar direitinho, montando em algumas pilhas depois guardar com cuidado nas gavetas do armário. Juca não se agradou da missão, mas pra não fazer feio, acatou as instruções. Porém enquanto cumpria a tarefa soltou sua imaginação. Queria estar em outro lugar, vivendo mil aventuras, soltando pipa na rua ou pião com a garotada ao invés de estar ali a engavetar roupas dobradas. Tendo coordenado o trabalho, dona Sebastiana foi prosear, ali bem pertinho com as amigas da vizinhança onde pôde então se gabar orgulhosa e confiante: - Olhe só dona Lilinha, meus filhos são tão aplicados, estão a cumprir seus trabalhos, pois é uma lição importante para que cresçam disciplinados e tornem-se pessoas organizadas, dedicadas e competentes. Já entrando à tarde, a mãe foi conferir o trabalho de cada uma das crianças. Da maior ao pequenino para avaliar seus desempenhos e parabenizar com carinho. As meninas uma a uma orgulhosa apresentaram todas prosa para a mamãe impressionada o resultado de seus esforços. Menos o menino Juca que a essas alturas, há horas que ninguém via, nem na sala, nem no quintal nem no banheiro, nem na cozinha. Dona Sebastiana foi até o quarto, para confirmar o fato. O trabalho o pequeno havia por certo encerrado pois não havia roupas à vista, mas da sua presença nem sequer uma pista. Foi aí então que a mãe começou a preocupar-se. Meninas, disse ela: - Vão até as casas dos vizinhos e vejam se em algum lugar foi o peralta brincar. Cada uma das irmãs percorria um canto da quadra, batendo de porta em porta a perguntar sobre o menino. Mas ninguém dava paradeiro, ou uma boa resposta e as irmãzinhas voltaram já com ar de desespero. Tardinha já caindo e a noite medonha surgindo, dona Sebastiana preocupada a buscar em todo lugar pouco a pouco alarmava a sua fiel vizinhança, de tal forma que chegavam vizinhos preocupados a toda hora. Calma dona Sebastiana, não fique assim não se alarme! Vamos nos reunir para buscas por todas as ruas da cidade. Formavam grupos organizados entre adultos e crianças de forma que no quintal, cercado por pés de adálias já não cabia a vizinhança. Procuraram diligentemente, fizeram grande varredura por ruas, quadras, escolas campinhos e parentela e as estas alturas até em hospitais estenderam a procura. Dona Sebastiana em completa vigilância já pedia água com açúcar desesperada com o sumiço do seu filhinho caçula. Já pelas tantas da noite o povariu retornava com um caído semblante sem qualquer notícia a ser dada. Vendo não haver resultado disse a mãe já descabelada: - Agora vou à polícia, estou muito apavorada, aquele menino é sapeca mas nunca aprontou uma coisa dessas ! Vou encontrar meu filhinho dar um puxão de orelhas, um abraço apertado e depois muitos beijinhos. - Sim senhora! Concordou a multidão. Vamos às autoridades, pois é direito do cidadão buscar ajuda e reforço para um caso assim tão grave como esta situação do sumiço do seu garoto! Dito isto, Dona Sebastiana apressada foi logo saindo entre muitos comentários animadores e atordoantes e o coro organizado de suas filhinhas chorando. Nana, a filha do meio, a mais chorona de todas de tudo quis participar apesar do seu tamanho, queria à mãe dar apoio: - Mamãe, vou com a Senhora, espera só um pouquinho, pois é tarde e já sinto frio. Vou pegar meu agasalho, prometo que é rapidinho, entre frio, choro e soluços foi ao quarto pegar sua blusa. Enquanto aguardava a mãe era só sofrimento, a ouvir os comentários de seus vizinhos barulhentos. Já instalada a escuridão medonha e tenebrosa, ao longe podia se ouvir o piado de corujas. No negrume da noite fria à luz da lamparina formava sombras deformadas trêmulas e grotescas nas paredes das casas de madeira com olhos irados. Era o mesmo que ver horrorosos espantalhos. Um vento forte tomou o quintal até formar um redemoinho arrastando as folhas secas, o inesperado vendaval. Com tamanha ventania foi um abre e fecha de portas, rangendo dobradiças e batendo as janelas com força. Gelando de medos os adultos, assustando os pequeninos e agitando os cães vira-latas que vadiavam na praça. Como em som de pesadelo era mesmo de dar medo e arrepiar os cabelos.

Os visinhos as estas alturas gelados até a cintura, teciam comentários sem a menor compostura. Um dizia amedrontado: - Tem que tomar cuidado! Pois há quem pegue crianças, e jogue em um caminhão pra levar para uma fábrica pra fazer bola de sabão! - Isso, não é nada! Disse outro camarada, ouvi dizer na minha quadra algo muito sinistro; existem seres cor de abóbora vindos em nave espacial pra pegar as criancinhas e levar pro espaço sideral pra fazer pro seus filhinhos uma espécie de mingal. O outro não fez questão e foi soltando mais uma: - Fiquei sabendo de um caso de um fantasma errante "A alma dos Três Cabelinhos" com seu grito horripilante a pegar na rua meninos sapecas para tosquiar seus cabelos, deixando assim o moleque completamente careca.

De repente, na negra noite em meio a macabras narrativas, ouviu-se um grito cortante, um som estridente que ardia. Foi um pânico atordoante, armou-se uma grande confusão, imaginando o que haveria se passado foi gente pra todo lado. Cada um teve uma reação uns ficaram paralisados enquanto outros corriam gritando completamente assustados, como quem vira assombração. Um bando pulou a cerca, um rapaz escalou o telhado. Um senhor em sua fuga correndo na noite escura abandonou ao relento sua própria dentadura.

Então após alguns segundos aparece correndo a menina Nana com seus olhinhos pequenos totalmente arregalados saindo do quarto escuro onde fora buscar seu agasalho. Atônitos o povo em suspeita aos poucos um a um retornava para ver o que é que verdadeiramente se passava. - Filha, peço que fique calma, disse a mãe confusa e pasma. O que foi minha querida parece que viu um fantasma? Já quase sem respirar a menina ria e chorava: - Mãe, a senhora não vai acreditar. Se tem um fantasma lá dentro, o nome dele é Juca, dito "O desaparecido", mas assustar não assusta, por certo não bota medo. Pois está bem tranqüilo a tirar um belo cochilo! Diante da declaração esbaforida foi notória a surpresa de todos, impossível foi ficar com raiva e começaram em coro a dar altas gargalhadas. Enfiaram-se aos empurrões no quarto para com seus próprios olhos constatar o fato. Abrindo as portas do armário ficaram de boca aberta, lá estava o menino Juca, realmente estava sumido embaixo de um monte de roupas e aconchegantes cobertas.